C-Value-Enigma’s Weblog

Junho 2, 2008

Loterias: crenças e coincidências

Arquivado em: ciencia — cvalueenigma @ 5:07 pm
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As coincidências são um lugar comum no cotidiano das pessoas, até bem mais do que elas próprias imaginam. Algumas são bem corriqueiras, como chegar ao ponto de ônibus no momento em que está chegando a condução certa ou ligar o rádio e estar tocando a musica que se gosta. Porém, existem outras que nos fazem realmente pensar, como – embora seja uma lenda urbana – o caso da mãe que ganhou na loteria jogando as datas de aniversários dos filhos.

O que realmente faz algumas coincidências extraordinárias e outras não é o nosso desejo intenso de explicar as primeiras, na crença de que algo especial aconteceu numa espécie de conspiração do universo para que as coisas tenham acontecido da forma como se deram.

Sagan dedicou, em seu livro “O mundo assombrado por demônios”, um capítulo inteiro sobre isso. Ele acreditava que o cérebro humano é viciado em significados, isto é, faz uma busca incessante por padrões escondidos debaixo da astronômica massa de dados sensoriais que processa a todo o momento.

Segundo Sagan, “… as fases de sorte, longe de ser extraordinárias, são esperadas até para eventos aleatórios. O que seria surpreendente é a ausência dessas fases”.

Vamos imaginar o seguinte exemplo proposto por Sagan: suponha que você jogue uma moeda dez vezes e no final obtenha quatro séries de caras seguidas, qual seria sua reação? Acreditaria estar exercendo algum controle extra-sensorial sobre a moeda? Ou simplesmente “estávamos numa fase de caras”?

Pode-se até argumentar que “parece regular demais para ser obra do acaso”, mas se levar em consideração que se estava jogando a moeda antes e que, certamente, haverá outras rodadas futuras após ter obtido essa serie específica de caras, percebemos que na verdade ela se inseria numa seqüência maior e bem menos interessante.

Quando é permitido prestar atenção a alguns resultados e ignorar outros, sempre se é capaz de provar que há algo de excepcional seja no que for. Pode-se, inclusive, até dizer tratar-se de “uma fase de sorte”. Essa é uma das inúmeras falácias relacionadas à argumentação de fatos.

Em seu artigo “O poder da coincidência” (versão complementar), Novella argumenta que “o que a maior parte das pessoas não sabe ou não querem acreditar é que coincidências, mesmos as notáveis, não são assim tão surpreendentes. Na verdade a maioria são ocorrências inevitáveis sem nenhum significado especial”.

Para ele, basicamente quatro fatores influenciam para essa interpretação errônea das coincidências pelas pessoas:

    1. Temos uma pobre compreensão inata de probabilidade;
    2. Acreditamos que todos os efeitos devem ter causas deliberadas;
    3. Não compreendemos as leis que regem os números verdadeiramente grandes;
    4. Sucumbimos facilmente à validação seletiva — a tendência de lembrar somente correlações positivas e esquecer um número muito maior de insucessos.

No que tange o primeiro fator, não é difícil compreender por que a maioria das pessoas tem dificuldades em probabilidades, já que essa disciplina não é comum nos currículos escolares básicos.

Moran & Lopes , no artigo “A Estatística e a Probabilidade Através das Atividades Propostas em Alguns Livros Didáticos Brasileiros Recomendados para o Ensino Fundamental”, discutem exatamente a importância deste tema no currículo escolar.

Para esses autores a estatística é algo indissociável do ensino das probabilidades, e que mesmo a primeira não aparece como estratégia da solução de problemas de pesquisa, como deveria ser trabalhada em todos os níveis de ensino.

Dessa forma argumenta-se que: “… a concepção de estatística que permeia os livros da 1ª à 8ª série é de um fazer empobrecido, por não inserir a construção dos conceitos estatísticos e probabilísticos na metodologia da resolução de problemas”.

Dentre as várias questões apontadas no artigo, destaca-se o fato de que nas séries iniciais sejam introduzidas algumas atividades que dão a entender que a estatística fornece o problema propriamente dito, confundindo-se aí o problema com sua solução.

Além disso, até a porcentagem, a qual é uma ferramenta matemática necessária à construção do conceito de probabilidade, gravemente não aparece em nenhum momento vinculado ao raciocínio estatístico, sendo que mesmo a palavra “probabilidade” é substituída insistentemente por “chance” quando a idéia é inserida nos livros escolares, dificultando ainda mais ao aluno a aproximar-se do pensamento cientifico da disciplina.

O artigo propõe que “o ensino da estocástica no Brasil seja ampliado rapidamente”, como forma de solucionar a questão, e, assim, “possa-se formar, de fato, cidadãos mais aptos a tomadas de decisão, especialmente em situações envolvendo a presença do acaso”.

Segundo os autores a maior inclusão do tema no currículo escolar básico traria diversas vantagens, dentre elas:

    … um maior interesse do aluno para a resolução de problemas relacionados com o mundo real e com outras matérias do currículo; influência positiva na tomada de decisões destes quando dispõem somente de dados afetados pela incerteza; facilidade na análise crítica da informação recebida através, por exemplo, dos meios de comunicação; um tipo de compreensão que proporciona uma filosofia do azar, de grande repercussão para o entendimento do mundo atual“.

De fato, compreender probabilidade pode dar o poder necessário para entender melhor o significado, ou a falta de significado, de muitos eventos do dia a dia. Para Novella:

    … uma compreensão precária de probabilidade e estatística, comum em nossa sociedade, leva as pessoas a se surpreenderem mais do que deveriam quando confrontadas com coincidências, por conseguinte um salto fácil em direção a uma explicação metafísica”.

Esse argumento passa também pelo segundo fator apontado por ele, onde se atribui explicações miraculosas a todo tipo de fato bizarro, porém plenamente plausível probabilisticamente, na crença de que exista “algum motivo especial” por trás do evento.

Uma forma de driblar essa crença é compreendendo melhor a “lei dos números grandes”, o terceiro fator de Novella. Essa lei estatística declara que numa amostra grande o suficiente, mesmo um evento extremamente improvável torna-se provável e, dessa forma, qualquer coisa, por menor que sejam suas chances de acontecer, em algum momento ocorrerá.

Utilizemo-nos de um exemplo hipotético para ilustrar esse fato: numa pesquisa feita pela Catho - uma empresa de recolocação profissional - afirmava-se que apenas 1% dos pedidos de aumento feitos ao chefe é realmente atendido, sendo assim inútil tal procedimento. Bem, apoiando-se na lei dos números grandes, bastaria então que o colaborador faça o pedido uma vez por dia para, em um ano, ter, em média, pelo menos duas delas atendidas, e se topar-se tentar diariamente durante cinco anos seguidos, pelo menos em 12 delas ter-se-ia sucesso.

Mesmo tratando-se, evidentemente, de uma estratégia irreal e cômica, o exemplo demonstra como mesmo um percentual pequeno se torna significante num montante de tentativas maior.

No mundo real um exemplo a ser citado é o interessante caso do coronel brasileiro Oscar Rocha da Silva Filho que, em 2003, sobreviveu a uma queda de 3,5 mil metros. Oscar pertence ao Esquadrão Aéreo-Terrestre de Salvamento (Pára-Sar), lotado no Rio de Janeiro, grupo de elite da Força Aérea Brasileira, e na época afirmou que o pára-quedas principal e o reserva falharam. No acidente acabou por cair em um campo, em cima de uma árvore, sofrendo apenas uma fratura no nariz, duas vértebras e o esterno quebrado. Quais as chances de alguém sobreviver a uma queda dessas? Pequenas, quase improváveis, poder-se-ia dizer.

Porém, o caso do sortudo coronel não é único no mundo. Michael Holmes, um instrutor britânico de pára-quedismo acrobático, teve o mesmo destino no final de 2006. Ele sobreviveu com apenas uma fratura no tornozelo a um salto de 3,6 mil metros na Nova Zelândia, quando seus dois pára-quedas falharam, caindo sobre uma plantação de amoras.

A lição que se tem desses fatos é que, dentro dos inumeráveis saltos de pára-quedas que já ocorreram no mundo, sempre encontraremos casos surpreendentes como esse, e isso se deve diretamente à lei dos números grandes.

O último fator de Novella é de longe o mais perigoso, pois trata de nossa tendência, muitas vezes inconsciente, de selecionar fatos felizes em detrimento de outros de menor sorte.

Essa característica pode ser explicada pela forma que nossa memória foi moldada pela natureza em seu processo evolutivo. O homem, de certa forma, é programado para procurar padrões e conexões por toda parte, e isso acaba muitas vezes por atrapalhar. Para Novella, “… na tentativa de encontrar padrão em tudo, nosso cérebro nos leva continuamente a sugerir explicações e até mesmo invocar forças estranhas — tais como poderes psíquicos — que não existem”.

É bem conhecido da medicina o fato de muitas pessoas que ficaram surdas atestarem ainda ouvir vozes, cânticos ou música “vindos do além” (vide Ludwig van Beethoven), bem como aqueles que perderam membros afirmarem sentir a presença “espiritual” destes ainda ligados a seus corpos. Isso tudo é produzido por nosso cérebro, que teima em procurar padrões auditivos ou sensoriais advindos de membros defeituosos ou ausentes.

Quando nossa propensão natural à validação seletiva é levada em conta, unindo-se ao nosso desejo em acreditar em algo ligado ao destino, o verdadeiro poder ilusório da coincidência é percebido.

Por fim, Henri Poincaré, matemático conhecido por sua posição extremamente intuísta nas ciências exatas, nos dá a seguinte explicação do motivo desse comportamento humano: “Nós também sabemos o quanto a verdade é muitas vezes cruel, e nos perguntamos se a ilusão não é mais consoladora”.

Maio 12, 2008

Hubblecast

Arquivado em: astronomia, ciencia — cvalueenigma @ 4:38 pm
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Hubblecast é uma iniciativa da ESA para divulgação dos feitos da missão Hubble.

Liderado pelo sempre animado Dr. J (Joe Liske), os episódios são distribuidos nos mais variados formatos de vídeo, do velho .MOV, passando pelo .MPEG até HD - high definition.

Hubblecast

Trata-se na verdade de uma coleção de curtas que versam sobre os mais variados temas astronômicos, ligados diretamente a descobertas obtidas graças as potentes lentes do telescópio Hubble.

Hubble Space Telescope

No primeiro episódio, Dr. J nos conta sobre a descoberta intrigante de uma “Galáxia Cometa”:

Hubblecast, episode 1

Download do vídeo - Download da legenda em portugues

Já no segundo episódio tomamos conhecimento sobre galáxias barradas (além do fato da Via Láctea possivelmente ser uma delas) e buracos negros supermassivos:

Hubblecast, episode 2

Download do Vídeo - Download da legenda em portugues

Aconselho a todos os interessados em astronomia a assistirem tais vídeos, pois cobrem o tema de forma simples e interessante.

 

 

Maio 8, 2008

Loterias: pseudo teorias e seus problemas

Arquivado em: ciencia, programação — cvalueenigma @ 9:11 pm
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É interessante como até hoje se vê na internet pessoas utilizando o velho esquema de dezenas atrasadas/adiantadas para montar seus jogos e testar sua sorte nas loterias.

Para quem não sabe, tal esquema consiste basicamente em contar em determinado período de tempo quantas vezes cada dezena da loteria em questão saiu, montando uma tabela ao estilo “dezena versus quantidade de sorteios que apareceu”. No passo seguinte estas são classificadas em dezenas “quentes” (ou sortudas, para aquelas que saíram mais vezes), e “frias” (ou azaradas, aquelas que saíram poucas vezes).

O uso do esquema varia. Enquanto alguns jogam somente nas dezenas quentes alegando estas estarem no momento com “sorte”, outros fazem o inverso: evitam as “mais” quentes sob o pretexto que estas já tiveram sorte por tempo de mais, portanto com grande chance desta “onda” mudar.

A verdade é que esse esquema é uma das falácias probabilisticas mais conhecidas em jogos de azar, sendo baseada, mais especificamente, na famosa lei das médias (e um pouco também na ilusão de agrupamento, que nos faz ver padrões onde não existem).

Para demonstrar que o que diz a lei das médias está errado, basta imaginar um jogo de cara ou coroa: o fato de sair duas caras consecutivas não garante que a próxima sairá coroa (como prega a lei), já que você pode muito bem estar na realidade no início de uma sequencia de várias caras.

Na verdade, não dá para dizer nem quando a sequencia de caras irá terminar, já que estatisticamente todas as sequencias devem sair em algum momento e em igual proporção. Isto é: três sequencias de coroas sairá em uma determinado intervalo de tempo mais ou menos na mesma proporção que três sequencias de caras.

Existe até uma fórmula estatística que calcula a quantidade de dezenas que estarão atrasadas ou adiantadas ao longo do tempo. O problema é que não dá pra dizer “qual” sequencia (ou dezena) atingirá “qual” tamanho em determinado instante do tempo.

Este, inclusive, é um perfeito exemplo de aplicação do modelo matemático de passeio aleatório (que por sua vez é usado no estudo do movimento browniano) e da eterna busca para saber “quando” o movimento neste passeio terá sua direção modificada.

O modelo de passeio aleatório mais simples é o caminhar do bêbado: neste temos uma linha imaginária onde um individuo alcoolizado deve seguir percorrendo indefinidamente. A cada passo de sua caminhada o bêbado decide (com igual probabilidade) se dá um passo para a direita ou para esquerda (ele não anda em linha reta), tudo em relação a tal linha, afastando-se ou reaproximando-se desta a cada momento.

O problema consiste em, uma vez iniciada a caminhada, identificar quanto tempo demorará para o bêbado voltar a cruzar a linha inicial (ou então, pelo menos, quando este passará a um padrão de aproximação ou distanciamento desta).

O problema do passeio aleatório é abordado também em antigas estratégias de estudo do movimento da bolsa de valores, tendo o princípio de onda de Elliott (que não tem bases científicas para apoiá-la, diga-se de passagem) seu maior exemplo.

Uma dica que dou para quem quer tentar a sorte em loterias da Caixa é ler meus artigos sobre MegaSena e LotoFácil, que dão dicas simples e estatisticamente confiáveis que podem, pelo menos, ajudar na escolha de suas apostas.

E para os loucos por bits e bytes, aconselho também a dar uma olhada nesse meu programa, que usa algumas das idéias contidas nos artigos.

 

Abril 11, 2008

IPVA, destino: buraco negro

Arquivado em: Pessoal — cvalueenigma @ 8:16 pm
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O IPVA é um pesado imposto anual brasileiro que afeta todos os proprietários de automotores do país. A transferência de tal montante para o Estado frequentemente frustra o contribuinte, principalmente quando este último não vê a contrapartida de tal tributo.

Para entender o motivo dessa infame caixa-preta que envolve a alocação dos recursos do IPVA no país, precisamos conhecer as origens de tal imposto. Dessa forma, segundo SILVA (2007) :

    “O Decreto-Lei n.º 999, de 21 de outubro de 1969 instituiu a Taxa Rodoviária Única, a qual incidia sobre o registro e licenciamento de veículos, considerando que a Constituição vigente à época do decreto permitia à União, aos Estados e Municípios, cobrarem taxas remuneratícias do seu poder de política ou pela utilização de serviços públicos utilizados ou postos à disposição do contribuinte. Consideravam, ainda, que a remuneração por esses serviços públicos desvirtuava o preceito constitucional de que o serviço fosse perfeitamente específico e divisível. Como forma de subsidiar a manutenção e conservação das estradas, a Taxa Rodoviária Única foi criada visando à abolição das desigualdades de valores e critérios de cobrança observada nas diversas unidades da Federação, o que levava a um tratamento discriminatório, ensejando a evasões de receita….”

Em seqüência, SILVA relata a estreita relação entre o IPVA e o antigo TRU, com a implementação do artifício que desvincula a contra prestação de serviço que o TRU anteriormente exigia:

    “O IPVA, de competência dos Estados e do Distrito Federal, sucedeu a antiga Taxa Rodoviária Única, com o advento da Constituição Federal de 1988. Assim, a cobrança acabou mudando de taxa para imposto por questão de mera técnica de linguagem quanto à exigência dela sobre todos os veículos automotores. Como imposto, o IPVA ficou livre da vinculação direta a uma contraprestação, desvirtuando os reais objetivos da cobrança estatal. Com o fim da TRU, as estradas ficaram sem subsídio garantido, pois na condição de taxa, a contraprestação deve ser direta.”

A mudança de nomenclatura desse tributo – tornando-a assim um imposto – possibilitou aos estados e municípios brasileiros alocarem tal recurso da forma que bem entenderem.

Como pode ser observado em todas as cidades brasileiras, o exercício desmedido dessa liberdade trouxe uma conseqüência indesejada: a contínua queda do nível de investimento que é feito anualmente em estradas no Brasil, já que o Estado, por desobrigar-se de destinar os recursos do IPVA para a finalidade original de tal tributo, acaba por aplicá-lo em outras áreas.

ARRECADAÇÃO

Embora a aplicação dos recursos do IPVA em benfeitorias para o contribuinte seja de quase nenhuma transparência, assim não o é o montante arrecadado anualmente, o qual pode ser facilmente obtido nos órgãos governamentais.

Dessa forma, segundo os dados do próprio governo, a arrecadação obtida pelo estado do Ceará (objeto desse estudo) com o IPVA é da ordem de centenas de milhões (R$165M em 2006), tendo um mínimo de 10% de crescimento anual.

Como o custo por m2 de asfalto gira em torno de R$30, linearmente, tal imposto poderia arcar sozinho com cerca de 5 km2 de asfalto anuais nesse estado.

REDE RODOVIÁRIA

A estrutura da rede rodoviária dos estados brasileiros também é uma informação de acesso público, facilmente obtido em diversos sites. Inúmeros estudos sobre esse assunto podem também ser colhidos na internet.

Dessa forma, observa-se que o tamanho da rede rodoviária do estado cearense corresponde a cerca de 52 mil km que, convertido para km2 (admitindo-se uma hipotética largura média de 10 metros da rodovia), chega-e ao número de 523km2. Porém, como apenas 12% da malha viária desse estado é pavimentada, ficamos com um total de 62km2 a re-pavimentar a cada 10 anos (que é a duração média do asfalto).

Sabendo-se que o estado poderia re-pavimentar 5km2 ao ano, teriamos toda a malha viária do estado refeita a cada 12 anos (ou 3 mandatos, que é a unidade oficial de tempo dos políticos brasileiros), observa-se claramente que os recursos provindos do IPVA, sozinho (sem considerar os gordos recursos advindos do imposto sobre combústiveis), mais do que sobra para arcar com os custos de reconstrução das estradas desse estado ao longo dos anos, se este fosse bem aplicado.

CONCLUSÃO

Fica então a seguinte questão: se mesmo uma investigação de cunho bastante básico como esta já demonstra indícios do potencial de investimento em infra-estrutura que o estado analisado possui, onde está de fato a barreira que impede tal decisão – tão necessária ao futuro econômico deste – de ser tomada?

REFERENCIAS:

    SILVA, Márcia S. A inconstitucionalidade dos pedágios.
    Inconstitucionalidades da Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico.
    SEFAZ. Arrecadação IPVA BRASIL, 2001-2006.

    Jornal O Povo. Previsão arrecadação IPVA 2008 no Ceará.
    WIKIPEDIA. Dados geográficos dos estados brasileiros.
    Estatística Ceará
    Portal 180 graus. Preço do asfalto no Piauí.
    FIEC. Rede rodoviária do Ceará.
    Pesquisa aponta principais gargalos da malha rodoviária brasileira, com vias em estado crítico
    USP. Largura média das rodovias no Brasil.
    FREAKONOMICS. Por que as leis bem-intencionadas saem pela culatra?

Abril 6, 2008

Universo computacional

Arquivado em: ciencia, programação — cvalueenigma @ 4:25 am
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Nesse final de semana estava a assistir um documentário da History Channel sobre como surgiu a Teoria do Big Bang, quando comecei a pensar nas inúmeras pessoas envolvidas nesse empreendimento ao longo dos séculos e como estas utilizaram-se quase que exclusivamente da matemática como principal ferramenta de explicação da natureza.

Não me é grande surpresa o uso da matemática para esse fim, já que julga-se desde eras imemoriais ser esta a linguagem universal (ou de um ”Deus Geômetra Onipotente para quem o mundo é um imenso problema matemático“, como bem diria Leibniz). Porém, também não é surpresa todas as teorias derivadas desta serem falhas em algum ponto. Ora, ao contrário do que mundanamente se pensa, não é a matemática imperfeita como nos sugeriu Godel?

O teorema da incompletude de Godel nos diz que “a matemática não é fechada, isto é, é incompleta“. Assim, “sempre existirão questões e problemas que NÃO podem ser respondidas pelos axiomas matemáticos EMBORA estes problemas possam estar bem definidos nesta matemática. Além disso, mesmo que se introduzisse novos axiomas para resolver estes problemas, SEMPRE existirão novos problemas que não serão respondidos por ela“.

Isso nos leva à crer que, assim como acontece na física, na matemática precisamos de teorias novas cada vez mais precisas e próximas da realidade as quais possam nos trazer respostas à velhos problemas bem como novas questões a serem respondidas.

Na física inclusive, mais precisamente na mecânica quântica, é bastante comum utilizarem artifícios matemáticos como a chamada renormalização para fugir de alguns resultados indesejados (infinitos, divisões por zero etc). Sem falar de alguns “relaxamentos” das regras matemáticas que aqui acolá se encontra menção em trabalhos importantes, inclusive de Einstein como acusam alguns.

Nesse contexto, o livro A New Kind of Science de Stephen Wolfram nos propõe que nossa matemática mostra-se assim incompleta por ser um simples reflexo e resultado de estruturas mais básicas. Ele sugere que nossos axiomas matemáticos se apóiam em bases lógicas, isto é, podem ser representadas e reconstruídas através de regras simples em autômatos celulares (vide capítulo Systems Based on Numbers na supracitada obra).

Em sua exposição, Wolfram nos instiga com a idéia de que informações aparentemente aleatórias, como o valor de PI e os números primos, podem ser explicadas e calculadas em termos de interações lógicas.

Nesse prisma, não é difícil visualizar que interações lógicas podem simular nossa matemática, já que são através delas que nossos computadores atuais fazem cálculos, bem como entender a dificuldade da matemática em representar operações lógicas como AND, OR e NOT (”e”, “ou” e “não”) em termos de seus axiomas naturais.

Assim, podemos crer ser plausível a idéia de Wolfram de que a matemática esteja contida dentro dos axiomas da lógica, tendo as CAs (tão conhecidas na ciência da computação) como sua representação gráfica tal qual os gráficos cartesianos os são para a matemática.

Nesse contexto, não se conseguiria com a matemática expressar tudo que poderia-se fazer com a lógica binária. E não é por menos, já que na ciência da computação sabe-se que linguagens de um nivel maior não podem modelar corretamente linguagens de nível menor (que são, inevitavelmente, mais expressivas que as primeiras).

Dessa forma, por exemplo, não se consegue transpor um programa escrito nativamente em Assembly (com binário oriundo dessa linguagem de baixo nível) para uma linguagem de alto nível, como C ou Java. Nesse processo sempre se perde algo que a linguagem destino não consegue expressar.

Este é o motivo, na ciência da computação, da grande dificuldade na engenharia reversa de código binário: embora sempre seja possível “descompilar” programas binários que sejam oriundos de código de alto nível, se o binário contiver partes (ou totalmente) escritos nativamente em Assembly estas não são convertidas. Talvez até esta seja também o motivo da dificuldade da engenharia genética em “hackear” o DNA: por ser código nativamente escrito em uma linguagem de baixo nível (como descrito nesse ótimo artigo), perde-se sua representação direta em uma abstração maior.

Mas, voltando-se ao tema do universo computacional, toda essa proposta do livro sobre a possibilidade de simularmos situações complexas através de simples regras de automatos celulares e que nosso mundo talvez seja governado por elas reacende velhas questões, como por exemplo o eterno debate do “determinísmo Laplaciano x indeterminismo quântico“.

Podemos imaginar que, caso vivamos em um mundo determinista, o simples fato de estarmos imersos nesse “sistema fechado” nos impede de modelarmos estados futuros deste, pois para conseguirmos tal possibilidade precisaríamos:

  1. não interagir com o sistema, a fim de evitar reações caóticas oriundas dessa interação (o que está de acordo com a visão da mecânica quântica de que o observador, pelo simples fato de observar, modifica o estado do objeto observado);
  2. termos um simulador que funcione mais rápido que o próprio universo, a fim de podermos simular o instante inicial, passar pelo atual e chegar ao instante futuro em um tempo que possa ser humanamente mensurável.

Por estarmos imersos no universo, e não podermos fisicamente fazer um programa rodar mais rápido que a própria máquina que o executa, nos faz chegar à conclusão que nos é impossível visualizar estados futuros por meio de uma simulação perfeita.

Mas essa conclusão não exclui simulações imperfeitas e incompletas, como as que encontramos em todas as nossas teorias da física antiga e atual.

Março 28, 2008

Mundo probabilístico

Arquivado em: ciencia, programação — cvalueenigma @ 6:57 pm
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Imagine se cada decisão que você fizesse em sua vida fosse governada pela sorte, mais especificamente por um dado. Essa é a proposta do livro “The Dice Man“, do autor americano George Cockcroft.

    The dice man book

Escrito na década de 70, a obra conta a estória de Luke Rhinehart, um fictício psiquiatra que, após deixar um dado ditar uma decisão sua depois de uma noitada de muito poker, passou a ter progressivamente uma vida aleatória, cada vez mais governada pelos dados.

    Luke Rhinehart

    “Utilizar a sorte para modificar o destino de sua vida é a forma mais extrema de jogo de azar” (Luke Rhinehart)

Rhinehart, para cada simples ação em sua vida, deixava sob o encargo de um dado decidir entre seis opções previamente definidas por ele para aquela ação. Para compor essa lista, ele seguia cinco regras básicas:

    1. Não incluia nenhuma opção a qual não gostaria de realizar;
    2. Lembrava-se sempre que uma aparente opção errada escolhida pelo dado poderia resultar num grande ganho no futuro;
    3. Sempre incluia uma ação drástica como opção, por que, na vida, ações assim podem simplesmente mudar tudo;
    4. No inicio de cada dia deixava o dado decidir se deve ou não usá-lo no restante do dia;
    5. E, periodicamente ignorava, deliberadamente, todas as quatro regras anteriores.

Analisando sob o ponto de vista matemático, o estilo de vida escolhida por  Rhinehart é tão provável quanto qualquer outro modo de vida que escolhermos ou inventarmos, por mais estranha que possa parecer. Ainda mais se considerarmos que as decisões humanas (e da natureza, vide a genética que apoia-se em mutações aleatórias) estão mais próximas de escolhas ao acaso do que qualquer tipo de embasamento racional (vide nossos políticos que refletem, sob o ponto de vista da amostragem, nosso povo).

De fato, o universo parece bastante aleatório em pequena escala (como demonstrado pela Mecânica Quantica), e mais determinístico em grandes escalas (vide as teorias relativisticas), e, nós humanos, encontramo-nos bem no meio termo disso. Ou, pelo menos, é assim que nos parece.

O pesquisador britânico Stephen Wolfram, em seu livro A New Kind of Science, relata que o mundo natural consegue realizar computações somente até um máximo nível de poder computacional, e que, embora muitos sistemas atinjam esse nível na natureza, há uma gama imensa de sistemas aparentemente simples com comportamento computacional complexo e vice-versa. Além disso sistemas computacionalmente equivalentes não conseguem mimetizar eficientemente um ao outro (ou sistemas mais complexos).

Assim, para que dois sistemas computacionalmente equivalentes (por exemplo, PCs de configuração idêntica) consigam mimetizar as atividades intrisecas do funcionamento um do outro implicará: ou na necessária simplificação do modelo desse sistema (para que seja possível uma simulação parcial em tempo real); ou no relaxamento do fator tempo para que seja possível a simulação total mas em lentíssima execução. Em qualquer das situações, perde-se a visão real do sistema original, impossibilitando sua compreensão total pelo outro.

Wolfram argumenta, em certo ponto do livro, que enxergamos como aleatório qualquer coisa que seja de igual ou maior complexidade que nós mesmos. Esses sistemas nos parecem aleatórios por que são, pelo menos, equivalentes a nossa própria complexidade.

Levando isso para a vida aleatória de Rhinehart, embora esta nos pareça assim sem sentido, qualquer vida também nos pareceria se considerarmos a possibilidade de que o conjunto das inúmeraveis situações que vivemos no decorrer dos anos forme um sistema pelo menos de igual complexidade a nós mesmos (já que esta ter uma menor complexidade é, obviamente, uma impossibilidade). Assim, nos resta apenas analisá-los sob o prisma de modelos imprecisos de vidas, na tentativa vã de mimetizar tais sistemas.

Se a vida, como um conjunto de inúmeraveis escolhas, é assim tão computacionalmente intratável por parte de nós, como saber se nossas decisões estão, de fato, nos rendendo pontos para uma melhor situação futura?

Será que, na soma final, fazer escolhas aleatórias nos trará a mesma taxa de perdas/ganhos que decisões racionais?

A teoria da computação nos mostra que o aumento linear do número de escolhas leva a um crescimento exponencial do número de possibilidades finais. Isso, em última instância, leva à indecidibilidade, na qual reside antigas questões como o Problema do caixeiro viajante de onde podemos apenas obter soluções boas, mas não a garantia da ótima solução.

Assim, talvez, decisões racionais (como uma forma de algoritmo de escolha) nos traga soluções que consideramos pelo menos satisfatórias.

Com isso, parece que na vida abrimos mão da possibilidade estatística real da ótima solução (que pode ser simplesmente descartada no rol de opções de nosso algorítmo pessoal de escolha), em prol de alcançarmos pelo menos o satisfatório.

No fim, trocamos o ganho máximo duvidoso por um ganho menor, porém certo.

Março 10, 2008

Será que sou medieval?

Arquivado em: ciencia — cvalueenigma @ 6:48 pm
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Nesse último final de semana, enquanto relia meu post anterior, percebi o quanto meu artigo pareceu demasiadamente defensor do ponto de vista “Pró-vida”, embora esta não seja minha posição pessoal em relação ao tema.

Num período onde as massas estão cada vez voltando-se mais às religiões mainstream, e a Igreja por sua vez, aproveitando-se de sua ampla influência, publica nova lista de pecados capitais no qual existe explicitamente um item sobre a pesquisa da célula-tronco, fico a me perguntar se tamanha pressão midiática/religiosa não está afetando a parte irracional do meu cérebro e assim me levando inconcientemente a defender de forma sutil idéias as quais na verdade discordo.

Se eu (e a grande maioria de nós, acredito) tivesse algum problema físico o qual a pesquisa com células-tronco beneficiasse diretamente, não tenho dúvidas que não hesitaria em doar meu semêm para o primeiro banco de embriões que aparecesse. É por esse motivo que não acho de muito crédito apresentar na mídia pessoas com deficiencia física defendendo tais pesquisas. Porém, no íntimo, saberia exatamente o que meu ato representaria: a futura destruição de um diminuto ser de minha espécie.

É dificil dormir quando sabe-se que teve uma melhora de vida as custas de outro ser. Porém, não podemos ser hipócritas, algo parecido já acontece todo santo dia no momento em que nos alimentamos.

Não há dúvidas que os embriões congelados nos diversos laboratórios pelo mundo são viáveis, como nos demonstram tantos artigos a respeito, restando-nos a perguntar porque tais embriões devem então ser usados para a pesquisa e os demais não.

Será que tais embriões congelados poderiam assim ser classificados como indesejáveis, nos dando permissão irrestrita a fazer o que bem quiser com eles?

Isso assusta, pois parece a época em que os homens (inclusive a Igreja) justificavam a escravidão do negro/índio no Brasil como sendo devido a “natureza de sub-espécie e quase animalesca” de tais indivíduos (tantas vezes retratado na coleção Terra Brasilis). São estes embriões então sub-espécie humana?

Em contra partida, existem aqueles que acreditam na pós-vida dos embriões, sugerindo que estes não são realmente destruidos pela pesquisa na tentativa de minimizar o problema. Porém, acho esta idéia particularmente pouco científica, sendo uma posição quase que apelante ao sobrenatural.

Mas, a despeito disso tudo, o que realmente faz afastar minhas recaídas “Pró-vida” e me re-aproximar da idéia “Pró-escolha” é lembrar de como se deu o progresso da medicina no mundo.

Para quem leu o livro As Dez Maiores Descobertas da Medicina, de Friedman/Friedland, sabe, por exemplo, que a grande maioria das principais descobertas se deram a partir de alguma abnegação particular, seja ela física, religiosa, ou ideológica, de uma geração de heróicos humanos.

O exito, por exemplo, quase que total das incontáveis cirurgias realizadas a cada dia nos hospitais pelo mundo resultam diretamente do conhecimento pleno do homem de sua anatomia. Esta, por sua vez, advém da pesquisa em cadáveres que se deu no inicio da era moderna da medicina.

Se não fosse a doação, consensual ou não (como visto no livro supracitado, onde os estudiosos frequentemente roubavam corpos), que essa geração fez de seus cadáveres (tão místicos e sagrados para eles), ainda estaríamos numa era obscura sobre a natureza do corpo humano.

Será que não é nossa hora de sermos também altruístas e doarmos algo que nos é caro em prol das gerações futuras?

Ao permitirmos tais pesquisas, por mais dolorosas que nos sejam, estamos contribuindo para o êxito de nossa espécie e cumprindo nosso papel de deixarmos um legado para as próximas gerações. Não sejamos então meros e preguiçosos aproveitadores dos frutos do legado passado (quem leu Quem Mexeu no Meu Queijo sabe do que estou falando).

É por tantas e outras que tento evitar minhas recaídas medievais. 

Parafraseando um verso do grande poeta Cazuza:

    “Será que sou medieval? Baby, eu me acho um cara tão atual… na moda da nova idade média… na mídia da novidade média…”

Março 6, 2008

Células, troncos e a raiz do problema…

Arquivado em: ciencia — cvalueenigma @ 7:30 pm
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Nesses últimos dias o tema Célula tronco tem estado em voga aqui no Brasil. O julgamento do STJ sobre a constitucionalidade de pesquisas com essas células, além de importantíssima para o futuro desfecho biotecnológico do país, está rendendo acaloradas discussões nas mais diversas rodas e classes.

Embora essa questão, no frigir dos ovos, resuma-se a decidir se o Brasil será ou não dependente de tecnologia alheia para a medicina do século XXI (nesse caso condenando-nos ou não a um estado de curandeirismo medieval do século passado, no qual se bombardeiava o corpo todo para resolver uma dor no dedão do pé), os “meios” em que isso se dará é que é o X da questão. 

Discute-se assim se os “meios” justificam os “fins”, mesmo que tais “fins” sejam inevitavelmente atingidos em algum momento por qualquer dos outros países minimamente capazes tecnologicamente desse pequeno e azulado grão de nada imerso no universo chamado Terra.

Tal futuro tecnológico promissor, diga-se de passagem, faço questão de defender, por acreditar que o desenvolvimento científico brasileiro (unida a divulgação e propagação da ciência às camadas mais desafortunadas), é o único caminho para nos livrar desse estado pequenês de pensar e mendigância secular em que vivemos.

Porém, o que geralmente não se vê na mídia é que o tema da célula tronco tem estreita relação com a questão do aborto, principalmente no que tange a definição de quando um embrião/feto se torna definitivamente e inequivocamente um ser humano, com todos os direitos resultantes a serem respeitados.

É esse o motivo da forte oposição da Igreja a tais pesquisas, pois, como todos sabem, a Igreja prega o direito a vida, muito embora tal “vida” que esta se refira seja apenas a humana, já que outras formas de vida são diária e ininterruptamente desrespeitadas por nós (e apoiada por ela).

Nesse sentido, temos que enxergar tal tema sob o enfoque do aborto, o qual, segundo o ótimo capítulo sobre tal assunto constante no livro Bilhões e Bilhões de Carl Sagan, polariza as opiniões entre os “Pró-vida” e os “Pró-escolha”.

Os autodenominados “Pró-vida” são aqueles que dizem-se defensores do direito a vida, enquanto os “Pró-escolha” são os que acham que o indivíduo, enquanto dono do próprio corpo, deve ter o direito de decidir o que fazer com ele.

Nesse contexto, fazendo-se um paralelo com o caso das células-troncos, os “Pró-escolha” acreditariam que toda pessoa que sofre de algum tipo de paralisia e que possui espermatozóides sadios teria  todo direito de doá-los para pesquisa em prol de sua cura.

Já a opinião dos “Pró-vida” seria que estas mesmas pessoas estariam na verdade compactuando com um tipo de assassinato, já que tais espermatozóides iriam fecundar óvulos igualmente doados, resultando inevitavelmente em um embrião que é tido como humano.

É importante fazer uma distinção aqui, muito embora espermatozóides e óvulos são ambos entidades inequivocamente vivas, destruí-los não é considerado assassinato pelos “Pró-vida”, já que bilhões deles são desperdiçados a cada santo dia pelo mundo afora. Os adeptos do “Pró-vida” consideram como “ser humano vivo” apenas os óvulos fecundados.

Mas será que o simples ato da fecundação por si só já nos deixa aptos a considerar essa nova entidade um ser humano? Bem, em termos de DNA sim, pois este possui uma cadeia completa. Mas em termos de humanidade real? Este novo ser pode a partir desse momento ser considerado humano? O que caracteriza um ser humano? Ter um DNA completo? O viver? O respirar?

Se fosse possível aproveitarmos células tronco de outros animais (digamos, talvez, de chipanzés, nossos primos próximos), certamente esse tema não seria controverso, já que teriamos um estoque quase inesgotável a aproveitar. Nesse contexto, óvulos fecundados de animais, embora inequivocamente vivos, alguns poderem respirar e todos terem DNA completos, valem menos que a vida humana. Percebemos aí o quanto esses parâmetros superficiais não são confiáveis para definir uma vida humana.

Muitos cientistas, alí incluía-se Sagan, propunham como limite o “pensar humano”, que se caracteriza nos fetos a partir do sexto mês de gestação. É interessante esse limite pois, embora semelhante ao momento do fortalecimento da capacidade respiratória, ele enquadra-se bem em leis existentes sobre o aborto pelo mundo afora.

Vejamos o que diz a lei americana: esta considera o aborto totalmente permitido até o terceiro mês da gestação, e parcialmente permitido até o sexto, baseando-se no fato que até aí o embrião não tem capacidade respiratória própria para viver fora do útero. Até esse limite, vale o direito da mulher de escolher se quer ou não ter esse filho.

Mas esse limite parece arbitrário no momento em que o vemos como baseado na tecnologia em vigencia, já que ela leva em conta a existencia das encubadoras, que garantem ao feto a sobrevivencia fora do útero em determinadas situações.

E se aparecer uma tecnologia que permita ao óvulo fecundado sobreviver e se desenvolver deste o inicio fora do útero materno? Se for desenvolvido um útero artificial? Nesse momento não seria imoral destruir um óvulo fecundado?

Quando percebemos que o que define o que é moral e o que é imoral em relação ao aborto (ou ao caso da célula tronco) tem raizes tão frágeis, vemos o quanto é arbitrário qualquer limite que impomos para considerar o que é “ser humano” ou o que não é. E vemos finalmente o quanto realmente é complexo o tema.

Seja qual for a decisão de nossos juízes de direito, apoiando ou não tais pesquisas, esta poderá ser considerada, em ambas as situações, ”de extrema ignorância” no futuro próximo.

Por fim, quem quiser ter mais detalhes técnicos sobre a questão, pode visitar o excelente blog do Matheus Laureano, o qual postou muitas informações a respeito.

Fevereiro 29, 2008

Nas ondas do wavelet

Arquivado em: programação — cvalueenigma @ 3:24 pm
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A análise numérica de dados é um vasto campo da matemática que tornou-se acessível ao público em geral com o barateamento dos computadores.

Livros como A Lógica do Mercado de Ações de John Allen Paulos, e o clássico Análise de Séries Temporais de Morettin & Toloi, ensinam, por exemplo, peripécias matemáticas que podem tanto ajudar à incautos investidores a como tentar prever e evitar as inconstâncias da bolsa de valores quanto a pequenas indústrias ajustarem sua linha de produção com base na previsão de vendas oriundas de tais técnicas.

A essa imensa literatura disponível, tanto física quanto no mundo virtual, soma-se os inúmeros softwares (muitos deles de custo inacessível a maioria dos mortais) que prometem, em rítmo de produção em massa, mastigar números e cuspir informações, estas últimas de valor inegavelmente estratégico para o incremento da eficiencia num mundo multi-conectado e competitivo de hoje.

Nesse contexto, dentro da minha modesta capacidade, tenho nas últimas semanas reservado tempo para estudar o método de programação genética linear como analisador numérico de dados. Como me deparei no programa que desenvolvi com alguns problemas relacionados a lenta convergência dos modelos encontrados para certas amostras (citado no post anterior), pensei em tentar caminhos alternativos para melhorar esse desempenho.

Com essa idéia na cabeça, comecei a desenvolver um novo programa que permite analisar dados numéricos a partir do método de wavelet (ou, em bom português: ondaletas).

O método de ondaletas surgiu como uma alternativa ao velho método da transformada de Fourier para análise de sinais, permitindo, dentre outras vantagens, uma análise temporal das informações escondidas na amostra estudada, coisa que o método de Fourier não permite pois este último analisa apenas as frequências alí contidas, e não o comportamento destas frequências ao longo do tempo.

Ondaletas são adotadas em diversos campos do saber, como a física (dinâmica molecular, astrofísica, geofísica, mecânica quântica), processamento de imagem (análise de EEG e DNA, clima, reconhecimento da fala e visão artificial), compressão de dados (o famoso JPEG 2000 utiliza essa técnica), em geral substituindo a já citada transformada de Fourier.

O algoritmo que utilizei no programa baseia-se no método discreto de Haars (matemático hungaro precursor desse método), que, a grosso modo funciona assim:

  1. Lê-se dois itens da amostra;
  2. Aplica-se a eles dois filtros de passagem (isto é, duas funções matemáticas pré-definidas, chamadas de low e high-pass);
  3. Obtêm-se dois novos valores, onde cada qual é colocado em amostras diferentes, formando assim duas novas sequências da amostra original;
  4. Volta-se ao item 1 até chegar ao final da amostra original.

Ao final do processo as duas novas amostras possuirão metade do tamanho da amostra original, sendo que representarão duas ondaletas dispersas ao longo do tempo, as quais estavam escondidas nos dados analisados.

Os filtros de passagem adotados para implementar o método discreto de Haars impressiona pela simplicidade. Estes foram:

Filtros de passagem

Na imagem abaixo temos um exemplo do programa em funcionamento. Na tela, vemos o sinal de uma função senóide - gerada aleatóriamente - sendo quebrada em duas ondas de frequência menores.

Wavelet de sinal senóide

Essa quebra pode ser feita em componentes ainda menores, até um limite imposto pelo tamanho da amostra estudada.

No programa inseri também uma função de forecast, permitindo inferir futuros valores que a amostra irá apresentar caso as ondaletas calculadas se mostrem corretas.

O passo seguinte será implementar uma regressão não linear como método adicional de forecast, bem como integrar esse programa ao de LGP que desenvolvi anteriormente e ver se com isso este último passa a gerar modelos mais precisos dos dados analisados.

Fevereiro 28, 2008

Pequenos quadrados….

Arquivado em: Darwinismo, programação — cvalueenigma @ 1:19 pm
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Ontem atualizei o programa LGPTester para utilizar o conhecidíssimo Método dos Mínimos Quadrados como função de escolha do indivíduo da população que melhor se adequa aos dados analisados.

Essa mudança provocou uma aceleração brutal no tempo de processamento do programa, fazendo-o encontrar mais rapidamente (e com maior qualidade) modelos que se ajustem aos dados analisados.

Na tela abaixo podemos visualizar o LGPTester modelando uma função senóide escolhida aleatóriamente. O programa conseguiu fazer a engenharia reversa dos dados e encontrar um código C que imite o comportamento da função original.

LGPTester

É uma pena que o mesmo ainda não se dá com dados oriundos de geradores pseudo-aleatórios, onde o LGPTester tende a convergir muito lentamente para um modelo coerente.

Um possível motivo para que isso ocorra talvez seja a necessidade ainda de inclusão de novas funções matemáticas (como módulo, por exemplo) ao leque disponível para o programa. Como as funções disponíveis são relativamente simples, talvez o programa só consiga modelar dados oriundos de fontes igualmente simples.

Outra possibilidade seria talvez a necessidade de avaliar os dados sob novos enfoques, rearranjando-os para facilitar a análise pelo programa. Nesse sentido, pretendo implementar três métodos que permitem analisar padrões escondidos em dados: wavelets, return maps e recurrence plots.

Comentarei tais métodos nos próximos posts, a medida que for implementando-os.

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