C-Value-Enigma’s Weblog

Março 28, 2008

Mundo probabilístico

Arquivado em: ciencia, programação — cvalueenigma @ 6:57 pm
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Imagine se cada decisão que você fizesse em sua vida fosse governada pela sorte, mais especificamente por um dado. Essa é a proposta do livro “The Dice Man“, do autor americano George Cockcroft.

    The dice man book

Escrito na década de 70, a obra conta a estória de Luke Rhinehart, um fictício psiquiatra que, após deixar um dado ditar uma decisão sua depois de uma noitada de muito poker, passou a ter progressivamente uma vida aleatória, cada vez mais governada pelos dados.

    Luke Rhinehart

    “Utilizar a sorte para modificar o destino de sua vida é a forma mais extrema de jogo de azar” (Luke Rhinehart)

Rhinehart, para cada simples ação em sua vida, deixava sob o encargo de um dado decidir entre seis opções previamente definidas por ele para aquela ação. Para compor essa lista, ele seguia cinco regras básicas:

    1. Não incluia nenhuma opção a qual não gostaria de realizar;
    2. Lembrava-se sempre que uma aparente opção errada escolhida pelo dado poderia resultar num grande ganho no futuro;
    3. Sempre incluia uma ação drástica como opção, por que, na vida, ações assim podem simplesmente mudar tudo;
    4. No inicio de cada dia deixava o dado decidir se deve ou não usá-lo no restante do dia;
    5. E, periodicamente ignorava, deliberadamente, todas as quatro regras anteriores.

Analisando sob o ponto de vista matemático, o estilo de vida escolhida por  Rhinehart é tão provável quanto qualquer outro modo de vida que escolhermos ou inventarmos, por mais estranha que possa parecer. Ainda mais se considerarmos que as decisões humanas (e da natureza, vide a genética que apoia-se em mutações aleatórias) estão mais próximas de escolhas ao acaso do que qualquer tipo de embasamento racional (vide nossos políticos que refletem, sob o ponto de vista da amostragem, nosso povo).

De fato, o universo parece bastante aleatório em pequena escala (como demonstrado pela Mecânica Quantica), e mais determinístico em grandes escalas (vide as teorias relativisticas), e, nós humanos, encontramo-nos bem no meio termo disso. Ou, pelo menos, é assim que nos parece.

O pesquisador britânico Stephen Wolfram, em seu livro A New Kind of Science, relata que o mundo natural consegue realizar computações somente até um máximo nível de poder computacional, e que, embora muitos sistemas atinjam esse nível na natureza, há uma gama imensa de sistemas aparentemente simples com comportamento computacional complexo e vice-versa. Além disso sistemas computacionalmente equivalentes não conseguem mimetizar eficientemente um ao outro (ou sistemas mais complexos).

Assim, para que dois sistemas computacionalmente equivalentes (por exemplo, PCs de configuração idêntica) consigam mimetizar as atividades intrisecas do funcionamento um do outro implicará: ou na necessária simplificação do modelo desse sistema (para que seja possível uma simulação parcial em tempo real); ou no relaxamento do fator tempo para que seja possível a simulação total mas em lentíssima execução. Em qualquer das situações, perde-se a visão real do sistema original, impossibilitando sua compreensão total pelo outro.

Wolfram argumenta, em certo ponto do livro, que enxergamos como aleatório qualquer coisa que seja de igual ou maior complexidade que nós mesmos. Esses sistemas nos parecem aleatórios por que são, pelo menos, equivalentes a nossa própria complexidade.

Levando isso para a vida aleatória de Rhinehart, embora esta nos pareça assim sem sentido, qualquer vida também nos pareceria se considerarmos a possibilidade de que o conjunto das inúmeraveis situações que vivemos no decorrer dos anos forme um sistema pelo menos de igual complexidade a nós mesmos (já que esta ter uma menor complexidade é, obviamente, uma impossibilidade). Assim, nos resta apenas analisá-los sob o prisma de modelos imprecisos de vidas, na tentativa vã de mimetizar tais sistemas.

Se a vida, como um conjunto de inúmeraveis escolhas, é assim tão computacionalmente intratável por parte de nós, como saber se nossas decisões estão, de fato, nos rendendo pontos para uma melhor situação futura?

Será que, na soma final, fazer escolhas aleatórias nos trará a mesma taxa de perdas/ganhos que decisões racionais?

A teoria da computação nos mostra que o aumento linear do número de escolhas leva a um crescimento exponencial do número de possibilidades finais. Isso, em última instância, leva à indecidibilidade, na qual reside antigas questões como o Problema do caixeiro viajante de onde podemos apenas obter soluções boas, mas não a garantia da ótima solução.

Assim, talvez, decisões racionais (como uma forma de algoritmo de escolha) nos traga soluções que consideramos pelo menos satisfatórias.

Com isso, parece que na vida abrimos mão da possibilidade estatística real da ótima solução (que pode ser simplesmente descartada no rol de opções de nosso algorítmo pessoal de escolha), em prol de alcançarmos pelo menos o satisfatório.

No fim, trocamos o ganho máximo duvidoso por um ganho menor, porém certo.

Março 10, 2008

Será que sou medieval?

Arquivado em: ciencia — cvalueenigma @ 6:48 pm
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Nesse último final de semana, enquanto relia meu post anterior, percebi o quanto meu artigo pareceu demasiadamente defensor do ponto de vista “Pró-vida”, embora esta não seja minha posição pessoal em relação ao tema.

Num período onde as massas estão cada vez voltando-se mais às religiões mainstream, e a Igreja por sua vez, aproveitando-se de sua ampla influência, publica nova lista de pecados capitais no qual existe explicitamente um item sobre a pesquisa da célula-tronco, fico a me perguntar se tamanha pressão midiática/religiosa não está afetando a parte irracional do meu cérebro e assim me levando inconcientemente a defender de forma sutil idéias as quais na verdade discordo.

Se eu (e a grande maioria de nós, acredito) tivesse algum problema físico o qual a pesquisa com células-tronco beneficiasse diretamente, não tenho dúvidas que não hesitaria em doar meu semêm para o primeiro banco de embriões que aparecesse. É por esse motivo que não acho de muito crédito apresentar na mídia pessoas com deficiencia física defendendo tais pesquisas. Porém, no íntimo, saberia exatamente o que meu ato representaria: a futura destruição de um diminuto ser de minha espécie.

É dificil dormir quando sabe-se que teve uma melhora de vida as custas de outro ser. Porém, não podemos ser hipócritas, algo parecido já acontece todo santo dia no momento em que nos alimentamos.

Não há dúvidas que os embriões congelados nos diversos laboratórios pelo mundo são viáveis, como nos demonstram tantos artigos a respeito, restando-nos a perguntar porque tais embriões devem então ser usados para a pesquisa e os demais não.

Será que tais embriões congelados poderiam assim ser classificados como indesejáveis, nos dando permissão irrestrita a fazer o que bem quiser com eles?

Isso assusta, pois parece a época em que os homens (inclusive a Igreja) justificavam a escravidão do negro/índio no Brasil como sendo devido a “natureza de sub-espécie e quase animalesca” de tais indivíduos (tantas vezes retratado na coleção Terra Brasilis). São estes embriões então sub-espécie humana?

Em contra partida, existem aqueles que acreditam na pós-vida dos embriões, sugerindo que estes não são realmente destruidos pela pesquisa na tentativa de minimizar o problema. Porém, acho esta idéia particularmente pouco científica, sendo uma posição quase que apelante ao sobrenatural.

Mas, a despeito disso tudo, o que realmente faz afastar minhas recaídas “Pró-vida” e me re-aproximar da idéia “Pró-escolha” é lembrar de como se deu o progresso da medicina no mundo.

Para quem leu o livro As Dez Maiores Descobertas da Medicina, de Friedman/Friedland, sabe, por exemplo, que a grande maioria das principais descobertas se deram a partir de alguma abnegação particular, seja ela física, religiosa, ou ideológica, de uma geração de heróicos humanos.

O exito, por exemplo, quase que total das incontáveis cirurgias realizadas a cada dia nos hospitais pelo mundo resultam diretamente do conhecimento pleno do homem de sua anatomia. Esta, por sua vez, advém da pesquisa em cadáveres que se deu no inicio da era moderna da medicina.

Se não fosse a doação, consensual ou não (como visto no livro supracitado, onde os estudiosos frequentemente roubavam corpos), que essa geração fez de seus cadáveres (tão místicos e sagrados para eles), ainda estaríamos numa era obscura sobre a natureza do corpo humano.

Será que não é nossa hora de sermos também altruístas e doarmos algo que nos é caro em prol das gerações futuras?

Ao permitirmos tais pesquisas, por mais dolorosas que nos sejam, estamos contribuindo para o êxito de nossa espécie e cumprindo nosso papel de deixarmos um legado para as próximas gerações. Não sejamos então meros e preguiçosos aproveitadores dos frutos do legado passado (quem leu Quem Mexeu no Meu Queijo sabe do que estou falando).

É por tantas e outras que tento evitar minhas recaídas medievais. 

Parafraseando um verso do grande poeta Cazuza:

    “Será que sou medieval? Baby, eu me acho um cara tão atual… na moda da nova idade média… na mídia da novidade média…”

Março 6, 2008

Células, troncos e a raiz do problema…

Arquivado em: ciencia — cvalueenigma @ 7:30 pm
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Nesses últimos dias o tema Célula tronco tem estado em voga aqui no Brasil. O julgamento do STJ sobre a constitucionalidade de pesquisas com essas células, além de importantíssima para o futuro desfecho biotecnológico do país, está rendendo acaloradas discussões nas mais diversas rodas e classes.

Embora essa questão, no frigir dos ovos, resuma-se a decidir se o Brasil será ou não dependente de tecnologia alheia para a medicina do século XXI (nesse caso condenando-nos ou não a um estado de curandeirismo medieval do século passado, no qual se bombardeiava o corpo todo para resolver uma dor no dedão do pé), os “meios” em que isso se dará é que é o X da questão. 

Discute-se assim se os “meios” justificam os “fins”, mesmo que tais “fins” sejam inevitavelmente atingidos em algum momento por qualquer dos outros países minimamente capazes tecnologicamente desse pequeno e azulado grão de nada imerso no universo chamado Terra.

Tal futuro tecnológico promissor, diga-se de passagem, faço questão de defender, por acreditar que o desenvolvimento científico brasileiro (unida a divulgação e propagação da ciência às camadas mais desafortunadas), é o único caminho para nos livrar desse estado pequenês de pensar e mendigância secular em que vivemos.

Porém, o que geralmente não se vê na mídia é que o tema da célula tronco tem estreita relação com a questão do aborto, principalmente no que tange a definição de quando um embrião/feto se torna definitivamente e inequivocamente um ser humano, com todos os direitos resultantes a serem respeitados.

É esse o motivo da forte oposição da Igreja a tais pesquisas, pois, como todos sabem, a Igreja prega o direito a vida, muito embora tal “vida” que esta se refira seja apenas a humana, já que outras formas de vida são diária e ininterruptamente desrespeitadas por nós (e apoiada por ela).

Nesse sentido, temos que enxergar tal tema sob o enfoque do aborto, o qual, segundo o ótimo capítulo sobre tal assunto constante no livro Bilhões e Bilhões de Carl Sagan, polariza as opiniões entre os “Pró-vida” e os “Pró-escolha”.

Os autodenominados “Pró-vida” são aqueles que dizem-se defensores do direito a vida, enquanto os “Pró-escolha” são os que acham que o indivíduo, enquanto dono do próprio corpo, deve ter o direito de decidir o que fazer com ele.

Nesse contexto, fazendo-se um paralelo com o caso das células-troncos, os “Pró-escolha” acreditariam que toda pessoa que sofre de algum tipo de paralisia e que possui espermatozóides sadios teria  todo direito de doá-los para pesquisa em prol de sua cura.

Já a opinião dos “Pró-vida” seria que estas mesmas pessoas estariam na verdade compactuando com um tipo de assassinato, já que tais espermatozóides iriam fecundar óvulos igualmente doados, resultando inevitavelmente em um embrião que é tido como humano.

É importante fazer uma distinção aqui, muito embora espermatozóides e óvulos são ambos entidades inequivocamente vivas, destruí-los não é considerado assassinato pelos “Pró-vida”, já que bilhões deles são desperdiçados a cada santo dia pelo mundo afora. Os adeptos do “Pró-vida” consideram como “ser humano vivo” apenas os óvulos fecundados.

Mas será que o simples ato da fecundação por si só já nos deixa aptos a considerar essa nova entidade um ser humano? Bem, em termos de DNA sim, pois este possui uma cadeia completa. Mas em termos de humanidade real? Este novo ser pode a partir desse momento ser considerado humano? O que caracteriza um ser humano? Ter um DNA completo? O viver? O respirar?

Se fosse possível aproveitarmos células tronco de outros animais (digamos, talvez, de chipanzés, nossos primos próximos), certamente esse tema não seria controverso, já que teriamos um estoque quase inesgotável a aproveitar. Nesse contexto, óvulos fecundados de animais, embora inequivocamente vivos, alguns poderem respirar e todos terem DNA completos, valem menos que a vida humana. Percebemos aí o quanto esses parâmetros superficiais não são confiáveis para definir uma vida humana.

Muitos cientistas, alí incluía-se Sagan, propunham como limite o “pensar humano”, que se caracteriza nos fetos a partir do sexto mês de gestação. É interessante esse limite pois, embora semelhante ao momento do fortalecimento da capacidade respiratória, ele enquadra-se bem em leis existentes sobre o aborto pelo mundo afora.

Vejamos o que diz a lei americana: esta considera o aborto totalmente permitido até o terceiro mês da gestação, e parcialmente permitido até o sexto, baseando-se no fato que até aí o embrião não tem capacidade respiratória própria para viver fora do útero. Até esse limite, vale o direito da mulher de escolher se quer ou não ter esse filho.

Mas esse limite parece arbitrário no momento em que o vemos como baseado na tecnologia em vigencia, já que ela leva em conta a existencia das encubadoras, que garantem ao feto a sobrevivencia fora do útero em determinadas situações.

E se aparecer uma tecnologia que permita ao óvulo fecundado sobreviver e se desenvolver deste o inicio fora do útero materno? Se for desenvolvido um útero artificial? Nesse momento não seria imoral destruir um óvulo fecundado?

Quando percebemos que o que define o que é moral e o que é imoral em relação ao aborto (ou ao caso da célula tronco) tem raizes tão frágeis, vemos o quanto é arbitrário qualquer limite que impomos para considerar o que é “ser humano” ou o que não é. E vemos finalmente o quanto realmente é complexo o tema.

Seja qual for a decisão de nossos juízes de direito, apoiando ou não tais pesquisas, esta poderá ser considerada, em ambas as situações, ”de extrema ignorância” no futuro próximo.

Por fim, quem quiser ter mais detalhes técnicos sobre a questão, pode visitar o excelente blog do Matheus Laureano, o qual postou muitas informações a respeito.

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