Imagine se cada decisão que você fizesse em sua vida fosse governada pela sorte, mais especificamente por um dado. Essa é a proposta do livro “The Dice Man“, do autor americano George Cockcroft.
Escrito na década de 70, a obra conta a estória de Luke Rhinehart, um fictício psiquiatra que, após deixar um dado ditar uma decisão sua depois de uma noitada de muito poker, passou a ter progressivamente uma vida aleatória, cada vez mais governada pelos dados.

“Utilizar a sorte para modificar o destino de sua vida é a forma mais extrema de jogo de azar” (Luke Rhinehart)
Rhinehart, para cada simples ação em sua vida, deixava sob o encargo de um dado decidir entre seis opções previamente definidas por ele para aquela ação. Para compor essa lista, ele seguia cinco regras básicas:
- 1. Não incluia nenhuma opção a qual não gostaria de realizar;
- 2. Lembrava-se sempre que uma aparente opção errada escolhida pelo dado poderia resultar num grande ganho no futuro;
- 3. Sempre incluia uma ação drástica como opção, por que, na vida, ações assim podem simplesmente mudar tudo;
- 4. No inicio de cada dia deixava o dado decidir se deve ou não usá-lo no restante do dia;
- 5. E, periodicamente ignorava, deliberadamente, todas as quatro regras anteriores.
Analisando sob o ponto de vista matemático, o estilo de vida escolhida por Rhinehart é tão provável quanto qualquer outro modo de vida que escolhermos ou inventarmos, por mais estranha que possa parecer. Ainda mais se considerarmos que as decisões humanas (e da natureza, vide a genética que apoia-se em mutações aleatórias) estão mais próximas de escolhas ao acaso do que qualquer tipo de embasamento racional (vide nossos políticos que refletem, sob o ponto de vista da amostragem, nosso povo).
De fato, o universo parece bastante aleatório em pequena escala (como demonstrado pela Mecânica Quantica), e mais determinístico em grandes escalas (vide as teorias relativisticas), e, nós humanos, encontramo-nos bem no meio termo disso. Ou, pelo menos, é assim que nos parece.
O pesquisador britânico Stephen Wolfram, em seu livro A New Kind of Science, relata que o mundo natural consegue realizar computações somente até um máximo nível de poder computacional, e que, embora muitos sistemas atinjam esse nível na natureza, há uma gama imensa de sistemas aparentemente simples com comportamento computacional complexo e vice-versa. Além disso sistemas computacionalmente equivalentes não conseguem mimetizar eficientemente um ao outro (ou sistemas mais complexos).
Assim, para que dois sistemas computacionalmente equivalentes (por exemplo, PCs de configuração idêntica) consigam mimetizar as atividades intrisecas do funcionamento um do outro implicará: ou na necessária simplificação do modelo desse sistema (para que seja possível uma simulação parcial em tempo real); ou no relaxamento do fator tempo para que seja possível a simulação total mas em lentíssima execução. Em qualquer das situações, perde-se a visão real do sistema original, impossibilitando sua compreensão total pelo outro.
Wolfram argumenta, em certo ponto do livro, que enxergamos como aleatório qualquer coisa que seja de igual ou maior complexidade que nós mesmos. Esses sistemas nos parecem aleatórios por que são, pelo menos, equivalentes a nossa própria complexidade.
Levando isso para a vida aleatória de Rhinehart, embora esta nos pareça assim sem sentido, qualquer vida também nos pareceria se considerarmos a possibilidade de que o conjunto das inúmeraveis situações que vivemos no decorrer dos anos forme um sistema pelo menos de igual complexidade a nós mesmos (já que esta ter uma menor complexidade é, obviamente, uma impossibilidade). Assim, nos resta apenas analisá-los sob o prisma de modelos imprecisos de vidas, na tentativa vã de mimetizar tais sistemas.
Se a vida, como um conjunto de inúmeraveis escolhas, é assim tão computacionalmente intratável por parte de nós, como saber se nossas decisões estão, de fato, nos rendendo pontos para uma melhor situação futura?
Será que, na soma final, fazer escolhas aleatórias nos trará a mesma taxa de perdas/ganhos que decisões racionais?
A teoria da computação nos mostra que o aumento linear do número de escolhas leva a um crescimento exponencial do número de possibilidades finais. Isso, em última instância, leva à indecidibilidade, na qual reside antigas questões como o Problema do caixeiro viajante de onde podemos apenas obter soluções boas, mas não a garantia da ótima solução.
Assim, talvez, decisões racionais (como uma forma de algoritmo de escolha) nos traga soluções que consideramos pelo menos satisfatórias.
Com isso, parece que na vida abrimos mão da possibilidade estatística real da ótima solução (que pode ser simplesmente descartada no rol de opções de nosso algorítmo pessoal de escolha), em prol de alcançarmos pelo menos o satisfatório.
No fim, trocamos o ganho máximo duvidoso por um ganho menor, porém certo.